
Pós-Graduada em Fisioterapia Pélvica
Desconsiderando o câncer de pele não melanoma — o mais frequente no país —, o câncer colorretal ocupa hoje a terceira posição entre os tumores mais prevalentes no Brasil. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), são estimados cerca de 45 mil novos casos de câncer de cólon e reto por ano no triênio 2023–2025. Embora os números sejam expressivos, os avanços no diagnóstico precoce e nas estratégias de reabilitação têm elevado significativamente as chances de sobrevida: para os casos localizados, a taxa de sobrevida em cinco anos chega a 91%. Com isso, cresce também a atenção para as sequelas deixadas pelos tratamentos — especialmente aquelas que afetam o assoalho pélvico e comprometem a qualidade de vida dos pacientes.
Entre as possíveis sequelas deixadas pelo tratamento do câncer colorretal, as disfunções do assoalho pélvico merecem destaque, por impactarem diretamente a qualidade de vida física, emocional e social dos pacientes. Vale lembrar que o assoalho pélvico é composto por um conjunto de músculos, fáscias e ligamentos responsáveis por sustentar os órgãos localizados na pelve óssea — estrutura popularmente conhecida como “bacia”.
Quando há intervenções no reto ou ânus, como ressecções tumorais ou radioterapia na região pélvica, essa musculatura pode sofrer alterações significativas, resultando em sintomas como:
• Incontinência urinária ou fecal.
• Constipação crônica (prisão de ventre — tema que abordamos no artigo anterior)
• Dor pélvica
• Disfunções sexuais, como dor durante as relações.
Esses sintomas podem surgir semanas, meses ou até mesmo anos após o término do tratamento oncológico — frequentemente de forma silenciosa, mas com progressão gradual ao longo do tempo.
Além do desconforto físico, as disfunções do assoalho pélvico afetam profundamente a autoestima, a vida sexual, o retorno ao trabalho e a participação em atividades sociais. O medo de sofrer escapes de urina ou fezes em público, por exemplo, pode gerar constrangimento, afastamento do convívio social, isolamento e, em alguns casos, levar a quadros de ansiedade ou depressão.
A boa notícia é que, atualmente, existem caminhos seguros e eficazes para lidar com os comprometimentos do assoalho pélvico na fase de reabilitação pós-tratamento oncológico. O acompanhamento multidisciplinar é essencial, e a fisioterapia pélvica ocupa um papel central nesse processo de recuperação funcional.
Confira a seguir algumas estratégias que têm respaldo científico e vêm sendo utilizadas com sucesso no manejo das disfunções pélvicas após o câncer colorretal:
- Avaliação fisioterapêutica especializada.
Inclui exame físico detalhado, aplicação de questionários validados de qualidade de vida, biofeedback, eletromiografia e outros recursos que auxiliam o fisioterapeuta a identificar com precisão quais estruturas precisam ser reabilitadas. - Treinamento de fortalecimento e coordenação muscular.
Os exercícios são direcionados de forma individualizada, com foco na melhora do controle esfincteriano e na funcionalidade do assoalho pélvico como um todo.
- Terapia comportamental para hábitos intestinais e urinários.
Inclui reeducação sobre os padrões de evacuação, posicionamento no vaso sanitário e estratégias para tornar o funcionamento intestinal mais eficiente e menos doloroso. - Acompanhamento nutricional e psicológico.
A atuação do nutricionista contribui para o equilíbrio alimentar e o bom funcionamento do intestino, enquanto o apoio psicológico é fundamental para lidar com os impactos emocionais, especialmente quando há dor, alterações na sexualidade e mudanças na autoestima.
Passar por um câncer colorretal e seguir em frente é, sem dúvida, uma vitória imensa. E cada pessoa que sobrevive a essa jornada merece viver com dignidade, bem-estar e autonomia funcional — pilares fundamentais para uma vida plena.
Se você ou alguém que conhece está enfrentando esses desafios, procure uma fisioterapeuta pélvica de confiança. Porque cuidar do períneo também é cuidar da vida.
Para saber mais, siga a coluna quinzenal de Saúde Pélvica no Jornal do Sertão.
Fontes:
- INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA (INCA). Estimativa 2023: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2022. Disponível em: https://www.inca.gov.br/publicacoes/livros/estimativa-2023-incidencia-de-cancer-no-brasil.
- AGUIRA JÚNIOR; OLIVEIRA; SILVA et al. Sobrevida de pacientes com câncer colorretal em um Cancer Center. Arq. Gastroenterol. 57 (2) • Apr-Jun 2020.
- UNITED STATES. National Cancer Institute. Surveillance, Epidemiology, and End Results Program (SEER). Cancer Stat Facts: Colorectal Cancer. Bethesda: National Cancer Institute, [s.d.]. Disponível em: https://seer.cancer.gov/statfacts/html/colorect.html.
Profª. Lays Anorina – Fisioterapeuta Pélvica
Mestranda em Ciência e Tecnologia em Saúde
Pós-Graduada em Fisioterapia Pélvica
IG: @laysanorina2
E-mail: laysanorina@gmail.com









