No experimento, 40 cordeiros machos foram utilizados. Foto: Maíra Vergne

Uma pesquisa conduzida pela Embrapa demonstra que, com ajustes nas proporções de alimentos na dieta, ovinos infectados com verminose podem ter indicadores de desempenho, como ganho de peso e características de carcaça, semelhantes aos de animais saudáveis.
Com os diferentes manejos nutricionais, equilibrando alimentos que são fontes dos dois grupos de nutrientes dietéticos principais, proteína e energia, os cordeiros do experimento manifestaram até mesmo menor presença de parasitos.
O resultado demonstra maior capacidade de resistir à infecção parasitária, por meio de compensações metabólicas e, assim, manter índices produtivos, ou seja, a dieta adequada promove resiliência à verminose.
De acordo com o pesquisador Marcos Cláudio Rogério, da área de Nutrição Animal da Embrapa Caprinos e Ovinos, o experimento aponta uma novidade: o que incrementou a resiliência dos animais não foi simplesmente um maior aporte de alimentos fontes de proteínas, mas encontrar, na dieta, um nível ideal de aporte das chamadas proteínas metabolizáveis. Esse ajuste implica equilibrar não somente os alimentos proteicos, como também os energéticos, pois estes fornecem energia para a síntese de proteínas microbianas que acontece no aparelho digestivo dos animais.
“Acreditava-se que o incremento da resiliência às infecções parasitárias por conta da adequada nutrição animal estava simplesmente no aporte crescente de proteínas nas dietas para pequenos ruminantes. Isso funciona bem até certo ponto. Porque se formos adicionar concentrados proteicos indefinidamente, o excesso será eliminado nas fezes e não aproveitado. Além disso, simplesmente incrementar os níveis de proteína bruta não dá garantia de absorção dessas proteínas e de seus aminoácidos, que podem ser indigestíveis”, observa Rogério, que liderou a equipe responsável pela pesquisa.

A pesquisa
No experimento, 40 cordeiros machos foram utilizados e divididos em grupos onde parte foi artificialmente infectada pelo Haemonchus contortus, parasita gastrointestinal que é um dos principais causadores de verminoses em caprinos e ovinos. Divididos em grupos, receberam dietas com diferentes proporções de alimentos volumosos (fontes de energia) e concentrados (fontes de proteína).
“O uso de dietas com 58% de concentrado seguindo as formulações dietéticas desenvolvidas com a pesquisa, por exemplo, já garante o incremento da resiliência às infecções parasitárias. Não precisa se utilizar de dietas com elevada proporção de concentrado para se atingir esse objetivo, nem utilizar excessiva quantidade de concentrados proteicos, que são caros. O importante é o ajuste dietético visando ao incremento no fornecimento da proteína metabolizável”, explica Rogério.
De acordo com ele, os resultados abrem uma nova perspectiva: estabelecer parcerias com o setor produtivo para o desenvolvimento conjunto de rações, aditivos alimentares e suplementos específicos para determinadas categorias de animais – como crias, animais em confinamento, fêmeas em lactação – conforme suas necessidades nutricionais. Esse incremento da resiliência às infecções pode colaborar também para a sustentabilidade de sistemas de produção, reduzindo a dependência de vermífugos para minimizar as perdas produtivas da verminose.
Resiliência e sustentabilidade na produção
A partir dos resultados do estudo, é possível pensar em alternativas que, ao promover melhor resiliência à verminose, garantam também maior sustentabilidade econômica e ambiental aos sistemas de produção de ovinos.
Essas estratégias nutricionais podem ser interessantes tanto para a criação em confinamento, permitindo melhor planejamento na compra de alimentos e venda de animais, como na criação a pasto, em que fatores como umidade, alta concentração de animais e indisponibilidade de nutrientes podem prejudicar uma resposta imunológica dos animais contra a verminose.
“Cada vez mais tem se pensado em sistemas de produção animal sustentáveis ambientalmente e, até mesmo, orgânicos. Utilizar-se de dietas que incrementem a resiliência dos animais às infecções parasitárias reduz a dependência aos anti-helmínticos para o controle parasitário. Assim, não haverá necessidade de administração de vermífugos ou, pelo menos, haverá uma redução considerável desse uso. Haverá também a redução de custos com mão de obra para manejo sanitário. Outro aspecto é evitar a resistência dos helmintos aos princípios farmacológicos que compõem os anti-helmínticos”, detalha o pesquisador da Embrapa Luiz Vieira, que também integrou a equipe da pesquisa.
Nutrição como parte do controle integrado
A possibilidade de um manejo nutricional que resulte em maior resiliência contra a verminose em caprinos e ovinos não exclui a importância de uma adequada estratégia de vermifugação e de manejo sanitário para minimizar os impactos da doença. A nutrição animal, na verdade, é um dos pilares da estratégia de controle integrado de verminose, recomendada pela Embrapa para os rebanhos de caprinos e ovinos. O uso de vermífugos, em associação com dietas que ofereçam nutrientes ideais para uma adequada resposta imune ao parasitismo, pode ser uma alternativa sustentável para a manutenção de índices produtivos dos rebanhos.
Além da nutrição animal, a estratégia de controle integrado traz recomendações sobre o manejo de pastagens, cuidado com instalações, fornecimento de alimentos, separação de animais em baias e piquetes. Tudo isso se soma ao uso otimizado dos vermífugos, com cuidados como a correta seleção de animais para vermifugação (de acordo com a categoria produtiva no rebanho) e dos medicamentos, conforme o princípio ativo. Essas recomendações diminuem a possibilidade dos parasitas criarem resistência à ação dos medicamentos aplicados.
Com informações da Embrapa Semiárido