A feira, um ambiente de negócios, encontros e segurança alimentar | Por Geraldo Eugênio

Feiras semanais, feiras de bairros, uma feira qualquer
A fome retornou com prazer ao Brasil. Uma pena. Ao mesmo tempo que o país é peça fundamental na segurança alimentar do mundo. Há quem diga que a produção agropecuária brasileira abastece mais de um bilhão de pessoas, o que é louvável, mas primeiramente não pode deixar de ter a devida atenção ao irmão que mora ao lado.
Um dos ambientes mais simbólicos em relação ao abastecimento, em qualquer que seja o ambiente, é a feira. Nas capitais e cidades maiores além das feiras de bairros se encontra uma grande quantidade de feiras específicas, a exemplo das feiras agroecológicas e de produtos orgânicos. Nas cidades de menor porte, a feira semanal até o presente se constitui como o principal evento. Naquele dia os habitantes dos distritos e vilas se deslocam à sede do município não apenas para as compras, mas para resolver seus problemas com o banco, a previdência, o sindicato, a lotérica, as concessionárias e em alguns casos, as igrejas.
Dá para se recordar o que representava o dia de segunda-feira em Serra Talhada há alguns anos. Aqui na fazenda sede da Estação Experimental do IPA, da UFRPE-UAST e da UPE era comum se ver os caminhões paus-de-arara e camionetas que passavam à ´cidade` vindos do Xique-xique, das Abóboras, do Pau Branco e de vários distritos que se distribuem nessa direção.
O local de abastecimento dos mais humildes
O público das feiras é rico e interessante. Sempre me impressiona as senhoras humildes, com sacolas plásticas com alças, normalmente com uma quantidade mínima de dinheiro, tentando adquirir a alimentação da semana. Somente entende quem também passou por alguns momentos de dificuldade. Surpreendentemente elas conseguem e trazem a macaxeira, ou a batata, ou o inhame, o feijão, a farinha de mandioca, a mistura, seja uma carne com osso, um peixe, normalmente a tilápia, ou um pedaço de frango e o inseparável ovo de todos os dias.
Cada região tem suas especificidades e culinárias típicas, no caso do nordeste semiárido os dois principais componentes da alimentação dos mais pobres são dois alimentos nobres: o cuscuz e o ovo. São usados no café da manhã, almoço e jantar. Durante minha infância também chamávamos o jantar de café ou de lanche como também é conhecido. Coisas interessantes. Apesar das mudanças de hábito alimentar testemunhadas como a diminuição do consumo do feijão e do arroz, neste momento, pelo preço, ou no aumento do uso de pães e macarrão, pela comodidade, o cuscuz ainda permanece imbatível. E daí há de se explicar quão importante é a produção de milho em qualquer município. Demanda crescente seja para uso como ração, produtos industriais ou alimento.
Ali desemboca a pequena produção rural
A outra marca registrada da feira livre, em especial as feiras semanais, é que ali é o maior mercado para os produtos advindos do pequeno e médio produtor. A hortaliça vem de áreas minúsculas, bem como as túberas, as farinhas, as frutas, as carnes e os lácteos. E, por incrível que pareça, onde há feiras organizadas a agricultura familiar prospera. As famílias elegíveis aos programas sociais de apoio normalmente usam a maior parte dos recursos nesses mercados.
Neste sentido, uma vez que estamos elegendo gestores do país e dos estados, seria de bom tom que, entre os programas dirigidos à segurança alimentar e a uma nutrição saudável que se investisse fortemente na qualificação das feiras. O problema número um é a limpeza, seguido da capacitação aos feirantes e à padronização das barracas. Vale a pena se frequentar ambientes com a devida higiene e que tão logo a feira se encerra o ambiente esteja limpo como se ali jamais houvesse existido um movimento de compra e venda tão intenso.
É uma iniciativa relativamente barata, mas que tem desdobramentos fortes quer entre aos produtores quer entre os consumidores. É bem verdade que a feira não elimina o intermediário ou atravessador. Até porque ele não pode ser retirado dos cenários facilmente. Os produtores nem sempre dispõem de tempo para parar suas atividades por um dia e se deslocarem ao local de venda em varejo. Os feirantes, por outro lado, cobrem três ou quatro feiras semanais, se deslocando de cidade a cidade em situações nem sempre confortáveis. Muitos desses se deslocam à feira à meia noite de modo que às cinco da manhã os consumidores ´corujas` possam fazer suas compras.
Onde se encontra um alimento bom e barato
A feira é um dos pilares do programa de segurança alimentar e erradicação da fome. Junte-se a ela o crédito rural, a bolsa ou a assistência aos mais necessitados e, à oferta de alimentos de modo direto em restaurantes populares ou bancos de alimentos. A diferença é que ela também incentiva o empreendedorismo e aquece o comércio. O campo, nos próximos dez anos sofrerá mudanças que até diria radicais em termos de oferta e aplicação de tecnologias, mas o mercado será soberano em construir a relação entre a produção e o consumo. As cadeias de supermercados e lojas mais estruturadas será sempre benvinda, mas a feira, o vendedor ambulante e o mercadinho sempre estarão presentes. Trataremos desses dois ambientes de negócio a qualquer momento. Por enquanto vamos a feira, se possível aquela que conta com um bom caldo-de-cana com pastel.

