Livro Estrelas de Couro: a Estética do Cangaço, de Frederico Pernambucano de Mello ganha nova roupagem
“O Sertão é meu campo de estudo”, diz o historiador Frederico Pernambucano de Mello, autor do livro Estrelas de couro: A Estética do Cangaço, que ganha sua 4ª edição em formato de revista pela Cepe Editora, com lançamento nesta quarta-feira, às 18h, no mezanino do Museu Cais do Sertão, Espaço Todo Gonzaga, no Bairro do Recife.
Com uma nova roupagem, “uma joia editorial” como parafraseou Frederico Pernambucano ao citar as aspas do jornalista e escritor Mario Hélio, em artigo recente publicado, Estrelas de Couro: A Estética do Cangaço chega em um momento oportuno, com uma apresentação para deixar qualquer sertanejo, pernambucano, brasileiro cheios de orgulho.

“Diria que algumas imagens tiveram um tratamento singular pelas mãos da equipe da Cepe. Cabeças cortadas que só falta o cheiro para torná-las ainda mais reais. Digo sempre que o livro sobre estética, depende muito mais da estética do que a palavra”, comentou ao JS o historiador Frederico Pernambucano de Mello.

Na obra, o cangaço recebe a visão criteriosa e estudada durante mais de 40 anos de pesquisa pelo historiador sobre o tema, sob um olhar estético por meio dos trajes, armas, adornos e utensílios domésticos utilizados pelos cangaceiros e tendo como principal protagonista Virgulino Ferreira da Silva vulgo Lampião e seu grupo. “Não há muitas publicações sobre estética no Brasil. Quase sempre o que se encontra são absorções locais de temáticas estrangeiras”, afirma Frederico.
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Lampião costurando, 1936. Postal da Coleção Pernambucano de Mello. Foto: B. Abrahão
Com prefácio mantido e escrito pelo eterno Ariano Suassuna (1927-2014) na 1ª edição do livro, em 2010, a obra é revestida de fotografias de Lampião e seus asseclas, notas explicativas ao final de cada um dos sete capítulos que compõem o livro de 300 páginas, com apêndice em inglês e extensa bibliografia. Além das fotos do acervo de objetos da coleção particular do autor – considerada “a mais completa, rigorosa e rica dentre quantas existem no país sobre o assunto”, diz o próprio Frederico, a nova edição traz ainda xilogravuras de Jota Borges, capas de revista e obras de arte sobre a temática do cangaço.
“E se há no Cangaço um elemento épico, este é ainda exacerbado pelos trajes e equipagem dos cangaceiros, com os seus anéis e medalhas, seus lenços coloridos, seus bornais cheios de bordaduras, os chapéus de couro enfeitados com estrelas e moedas — tudo isso que se coaduna perfeitamente com o espírito dionisíaco de dança e de festa dos nossos espetáculos populares e compõe uma estética peculiar, rica e original, agora minuciosamente estudada por Frederico Pernambucano”, escreveu Ariano, no prefácio.
O texto e riquezas do cangaço

A escrita dos textos se deu após muitos estudos e viagens ao Sertão, onde Frederico recolheu depoimentos de remanescentes do que ele chama de “ciclo histórico do cangaço”, ocorrido entre as décadas de 1920 até 1938, ano em que Lampião e os cangaceiros foram mortos. Ao iniciar a pesquisa, Frederico formou sua coleção particular, já apresentada em São Paulo, Rio de Janeiro, Chile e Inglaterra. Como resultado do trabalho, o historiador destaca a necessidade de ampliar o conceito de banditismo que se utilizava até então.
“Por muitos anos, o Cangaço foi apenas sinônimo de “banditismo rural”, como a ação dos beatos sertanejos foi apenas uma expressão de “fanatismo religioso “. Os antigos soldados de volantes policiais que escreveram memórias demonizavam o Cangaço sem atenuantes. Os marxistas o exaltavam como “resposta aos excessos do coronelismo”, esquecidos de que coronel e cangaceiro formavam no sertão uma simbiose, auxiliando-se mutuamente, apenas se desentendendo de forma episódica”, explica o autor.
Símbolo de resistência, o cangaço é o repúdio à adoção dos valores ditados pelo europeu colonizador à custa de sangue – o que ocorreu igualmente em muitas revoltas pelo país, como o massacre ocorrido em Canudos. “Com efeito, houve um Brasil que, desde a origem, não se dobrou aos valores europeus trazidos pelas caravelas – ao mercantilismo, à pontualidade, ao tempo linear, à acumulação de riquezas e de alimentos – e se manteve irredento. Arredio a tudo isso, por atitude ou militância até mesmo armada”, reflete Frederico, que no livro aponta a destruição da cultura dos insurgentes pelo governo brasileiro, ato que apaga a história e, portanto, a memória. “Quantos dos nossos museus não estão rindo com dentadura postiça?”, escreve o especialista.
Os cangaceiros como cavaleiros medievais
O capricho que o cangaceiro confere a suas vestes é comparado ao dos cavaleiros medievais europeus e aos samurais orientais, diz trechos do livro. “O traje do cangaceiro é um dos exemplos demonstrativos do comportamento arcaico brasileiro. Ao invés de procurar camuflagem para a proteção do combatente, é adornado de espelhos, moedas, metais, botões e recortes multicores, tornando-se um alvo de fácil visibilidade até no escuro”.


Essa contradição se explica pela crença no sobrenatural “em nome do qual ele exerce uma missão, lidera um grupo, desafia porque se acredita protegido e inviolável e, de fato, desligado do componente da morte”, explica o historiador. Ele acrescenta também que Lampião e seus companheiros eram afeitos a itens de luxo, como lenços de seda, perfume francês e óculos alemão.
No momento, Frederico atua como consultor da Globoplay, que está desenvolvendo a série Guerreiros do Sol, sobre Lampião e Maria Bonita. A previsão de estreia é para 2023, além de um projeto de criação do Museu do Cangaço, pela Fundação Joaquim Nabuco, e possivelmente, ainda a ser definido, com subsedes nos municípios de Floresta e Serra Talhada, onde grande parte do cangaço brasileiro foi vivenciada.

