Onde estão os umbus, meu caro Josué. Por Geraldo Eugênio
Geraldo Eugênio Foto: Divulgação

Frutas de estação

Um dos personagens centrais dessa crônica é o nosso amigo e colega Josué Francisco. Este pesquisador tem dedicado boa parte de suas energias a estudar frutas tropicais de interesse econômico. Dentre os objetos de seu trabalho estão as frutas conhecidas botanicamente como espondias, da família Spondiacea, destacando-se o umbu, a cajarana, o umbu-cajá, o cajá. Neste meio há uma intrusa, a ciriguela, da família do caju e da manga, mas com frutos mais próximos do umbu ou do umbu-cajá.

São espécies encontradas em todos os biomas do Nordeste, desde a Mata Atlântica à Caatinga bem como nos Brejos de altitude e até em áreas com características de Cerrado,

A paisagem seca do semiárido conta com dois exemplos ilustres, o umbu, árvore majestosa, de copa esgalhada e ampla, que, junto com o juazeiro fazem a face do sertão seco. Compartilhando a sombra e o alimento que oferecem. O juazeiro ou juá, com seus frutos consumidos pelos bodes e o umbu, uma verdadeira dádiva alimentar para o nordestino.

O umbu é uma das principais frutas de estação, a exemplo do caju, da manga, do pequi. O caju e a manga hoje são encontrados durante todos os meses nas ruas das cidades nordestinas devido ao uso da irrigação, não sendo o caso de uma manga coquinho, espada ou da típica manga rosa, consideradas como mangas de quintal e, consequentemente disponíveis uma vez ao ano.

Penca, cacho ou litro

A fruticultura artesanal, se assim for denominada, ainda conta com a pitomba, a jaca, o jambo, a carambola, a banana, e outras menos comuns. Normalmente são vendidas adotando-se um outro sistema métrico. A banana, por exemplo, se vende em pencas ou cachos. Também em cacho são comercializados o jambo e a pitomba. Outras frutas sertanejas, por seu tamanho e formato, adotam o litro como unidade tal como o umbu, a ciriguela, a pitomba, quando despencada, a azeitona ou jamelão e a jaboticaba. Algo exótico para quem visita a região. A jaca é algo a parte. É comercializada inteira, em frações ou em sacos plásticos. Levar uma jaca inteira para casa é algo que se faz apenas uma vez, já que o trabalho de cortar, limpar e retirar os bagos de jaca não é coisa fácil ou a manga e o fruta pão que normalmente se vende a unidade.

Com são gostosos nossos umbus

Uma coisa pode ser dita, dificilmente se encontra tanta versatilidade. A cor do fruto varia do amarelo ao verde intenso, quando madurecem, com diâmetros entre um a cinco centímetros de diâmetro. O tamanho das sementes é variável bem como a quantidade e a acidez da polpa.

Nos sertões antigos, não raramente, o que se contava para saciar a fome era uma cuia de umbus e outra de farinha de mandioca. Aos afortunados, um pouco de leite, com o qual se preparava uma deliciosa umbuzada e, quando se dispunha de um refrigerador, um suco, um picolé ou um bom sorvete.

O fato é que, as coisas mudaram, mas a disponibilidade de umbus nas estradas ou no mercado de rua ainda existe. Neste momento, na maioria das cidades sertanejas há de se encontrar mulheres com suas bacias, sacas ou, em alguns casos, balaios, cumprindo com sua lide diária abastecendo as famílias com umbu, ciriguela, maracujá, banana, macaxeira, batata doce e inhame.

Em busca de uma identidade

Esforços têm sido desprendidos na agregação de valor. Organizações, associações e cooperativas nas últimas duas décadas têm se esforçado para colocar no mercado formal produtos à base de umbu. Há de se reconhecer que não tem sido fácil. Apesar da qualidade e do sabor, o fato de não haver uma oferta durante todo o ano tem limitado a presença dos doces, geleias e dos sucos nas gôndolas dos mercados. Vale a pena o esforço em se tentar disseminar com mais afinco este grupo de frutos e seus produtos.

A ciriguela, por exemplo, ganhou o mercado e já passa a ser encontrada em igual ou maior intensidade do que o umbu. Sua presença quase que não era notada há algum tempo. Já o umbu-cajá, o cajá e a cajarana continuam quase no anonimato na maioria das comunidades.

Vale a pena voltar à carga e construir uma iniciativa mais ampla em prol dessas frutas e do arranjo que delas pode surgir. Afinal é muito egoísmo de nossa parte ver esta delícia de guloseima ficar restrita apenas as feiras dos sertões.

Os habitantes das grandes cidades e aqueles que estão em outras regiões do país merecem conhecer o umbu e seus parentes como também outras frutas regionais.

É bom lembrar que algo similar foi realizado com o kiwi, a partir da Austrália e com o açaí, uma espécie da Amazônia, que hoje conquistaram o mundo.

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