
Um ano para reflexão
Hoje, retornando de Recife à Serra Talhada, deparei-me com chuvas até Gravatá. O solo molhado, a vegetação viçosa e sempre exuberante da Zona da Mata. É quando nos vem a mente o cultivo da cana-de-açúcar, sua necessidade por água e a resposta quase automática que a cana dá após um bom período de chuvas. Entouceira, cresce, brilha quando bem tratada e em retorno vem a colheita pródiga em colmo, açúcar, etanol e energia. Quando a seca se aventura mata à dentro, o canavial é raquítico, amarelado e com produtividades tão baixas que mal se paga o corte a colheita e o transporte, o conhecido CCT. Ainda bem que nos últimos anos tem sido diferente e o setor sucroenergético tem se beneficiado, ao menos em termos, com a elevação do dólar, com a alta nos preços dos combustíveis e do açúcar, no mercado interno e com chuvas razoáveis.
O condicional se dá pelo fato de que, no caso do comércio de açúcar, parte da safra e em muitos casos toda a safra de uma usina já está vendida há meses ou anos com preços que se estabeleceram bem atrás, deixando de pegar a alta momentânea. Já quanto ao etanol e o preço atrelado à gasolina, beneficia-se por políticas equivocadas em detrimento da alta inflacionária que atinge a todos, é uma vitória de Pirro. Já em relação comércio exterior, volto a insistir, setores com alta inserção no mercado internacional também tem dívidas em moedas fortes. Na maioria dos casos os compromissos são pagos com a cotação do dia, mas seu produto será entregue à base de um contrato de preço futuro celebrado muito antes. Isto é, se paga mais e se recebe de menos. Este é o cenário.
A seca sempre a nos visitar
De Gravatá à Custódia, a paisagem está seca, com baixa capacidade de suporte forrageiro, indicando que os pecuaristas do Agreste e parte do Sertão devem estar adquirindo o suplemento alimentar para seus rebanhos ou plantéis. Dois casos mais conhecidos são a avicultura, e a pecuária leiteira. Sem carboidrato (grãos) e proteína (farelo de soja), não há ovos, frango ou leite. Apesar do arrefecimento nos valores dos grãos nos últimos dois meses, seguiu-se o achatamento nos preços do leite, por exemplo, indicando que a conta será sempre difícil de ser administrada, cobrando do empreendedor a capacidade gerencial e o aproveitamento do que a tecnologia oferece, em particular. Apesar de estarmos em época de entressafra nas regiões citadas, há os anos que se conta com algumas chuvas fora-de-época, com as trovoadas e o que vem amenizar todo efeito da estiagem. O que se observa no resto do estado até Petrolina. Uma verdadeira dádiva.
Um bom inverno, o maior presente
O nosso agricultor com os sinais de nuvens carregadas e escuras fica à espreita. Torce, reza, consulta o amigo, o extensionista, ou até o adivinho. O último, dependendo do valor da consulta sempre será otimista e assegura que deus não abandonará os seus, mesmos proibidos de falar em seu nome. Quanto aos técnicos, saem a procura de previsões. Algumas muito boas, mas que ainda ajudam pouco na tomada de decisão de médio e longo prazos. Avanços estão chegando e se espera que em pouco mais de dois anos se possa contar com previsões locais que ajudem ao pecuarista avaliar o número real de animais que deve preservar durante a época seca. O que não é possível ainda hoje. Uma coisa é certa, havendo alimento armazenado: silagem, fardos de feno, palma forrageira, áreas de cana-de-açúcar, independente do que vier, um dos fatores limitantes foi parcial ou totalmente resolvido.
Chuva ainda tem sido a tecnologia determinante
Estamos às portas com uma revolução tecnológica no semiárido. Aqui ocorrerá o que o no Cerrado brasileiro, no Meio-Oeste Americano, na China ou na Nova Zelândia. É a incorporação das tecnologias consideradas duras: engenharias, computação, inteligência artificial, internet das coisas ao produtor do Agreste e Sertão. O que previa o pensador e empresário Silvio Meira há vinte anos. Ontem, participava de uma reunião envolvendo dirigentes da ADEPE – Agência de Desenvolvimento de Pernambuco, FACEPE – Fundação de Amparo Ciência, Tecnologia e Inovação de Pernambuco e a UFRPE – Universidade Federal Rural de Pernambuco. Uma proposta em elaboração é a maneira de acelerar esta adoção envolvendo as cadeias produtivas, empresários e instituições de Pernambuco.
Esta iniciativa se torna inadiável pelo simples fato de que até o momento, o fator mais importante que determina a produção de alimentos, carne, leite, produtos agrícolas no semiárido tem sido um bom inverno. Sendo esta hipótese verdadeira, vamos colocar o que dispomos de melhor para reduzir as incertezas e elevar a taxa de acerto. A natureza faz a sua parte. A todos cabe um papel definido nesta construção, mas à universidade está reservado o papel de maior responsabilidade, o de gerir o diálogo e aportar a base tecnológica necessária com as instituições parceiras. Pernambuco está andando e se espera que em um período relativamente curto as mudanças sejam visíveis. O futuro cobra determinação e engajamento, que se oferte esses insumos.








