
O Jornal do Sertão bateu um papo com a professora e bióloga, Mary Ann Saraiva, de Petrolina-PE. Ela, que analisa os dados da Covid-19 na região do Vale do São Francisco desde o primeiro caso confirmado da doença, falou sobre os fortes indícios da presença da variante amazônica no Vale. Destacou também a situação dos Hospitais da Rede Interestadual de Saúde do Vale do Médio São Francisco Pernambuco-Bahia (Rede PEBA) que atendem mais de 50 municípios. além de comentar sobre a quarentena e a ausência da participação popular no cumprimento das medidas necessárias para reduzir a circulação do vírus.
Presença da variante amazônica no Vale do São Francisco

A professora e bióloga, Mary Ann Saraiva afirmou que a variante P1 do novo coronavírus está em atuação no Vale do São Francisco. Segundo Mary Ann, que comanda um estudo sobre o comportamento do vírus na região, dois fatos sustentam a opinião dela.
“Conheço pessoas que tiveram a primeira infecção por covid-19 no ano passado, identificada por exame PCR e agora estão reinfectados. A reinfecção precisa ser por outra variante. Então, como a variante amazônica tem uma grande quantidade de pessoas em São Paulo, já chegou ao Recife. E considerando o trânsito de pessoas em Petrolina e Juazeiro, como não há nenhuma barreira sanitária, há aviões que chegam todo o dia, então, o provável é que essa variante já esteja na nossa região”.
O segundo indicativo, de acordo com a bióloga é que “muitos jovens com quadros bem graves de Covid-19 intubados. Pacientes sem nenhuma comorbidade com 18, 20 anos, que estão lá entubados nas UTI’s dos hospitais da Rede PEBA”, destacou Mary Ann, acrescentado que a região também está com um quantitativo maior de infectados, o que caracteriza a comportamento da variante P1.
Mais leitos de UTI na região resolvem?
Segundo a bióloga, apesar de reconhecer a importância da ação diante do aumento da demanda de pacientes graves, para Mary Ann, só novos leitos não resolvem o problema. “Abrir esses leitos é extremamente necessário, mas a comunidade precisa ter uma outra postura. A variante que a gente tinha ano passado era mais simples, tanto que a gente teve pico e saiu dele rápido. Se não tivéssemos a vacina, embora acontecendo a vacinação de forma lenta, o nosso horizonte com essa variante P1, que tem alta disseminação, onde o paciente está bem hoje e 48 horas depois está com 70, 78% dos pulmões comprometidos. Então, precisa sim abrir leitos, mas a sensação é de enxugar gelo se as pessoas continuam teimando em aglomerar. E o pior que essas pessoas parecem não se sensibilizar, parecem não ouvir ninguém. É uma falta de respeito, inclusive à ciência”, avaliou a bióloga.

Rede PEBA já está em colapso!
Na avaliação de Mary Ann, a rede hospitalar PEBA já está em colapso. “A Rede PEBA já colapsou. Porque já temos lista de espera, são 53 pacientes ao todo esperando UTI. Desses os pacientes de Covid são mais de 30. Tem criança esperando leito de UTI Covid. Tem um respirador e três pacientes. Cabe ao médico decidir, dentro de uma série de critérios que foram elaborados, quem é o mais viável para ocupar o respirador. E os outros dois pacientes vão esperar a morte chegar. Isso já está acontecendo aqui desde a semana passada”, assegurou a estudiosa.
Análise do Decreto Estadual que instaurou a quarentena
A pedido do Jornal do Sertão, a bióloga Mary Ann fez um a breve avaliação do Decreto Estadual que colocou todos os municípios pernambucanos em quarentena até o dia 28 de março. Segundo a professora, existem falhas na distinção dos serviços essenciais. “Nunca vi venda de carros ou compra de automóvel ser algo essencial. Então, isso foi um erro absurdo”.
Apesar das falhas, para a bióloga a quarentena é essencial. “Nesse momento ela é necessária, mas se houver fiscalização. Porque o comerciante do centro da cidade é fiscalizado, não pode abrir nada. Você vai para os bairros periféricos e o carnaval toma conta, todo mundo aberto, porque não há fiscalização”, justificou Mary Ann sobre a razão da quarentena não ser eficaz.
O papel do cidadão
De acordo com a bióloga, nenhuma medida é 100% eficaz se não houver participação popular. “As pessoas precisam entender que, se todo mundo se recolher por 10, 15 dias, vai haver uma redução de espalhamento viral. E depois as atividades comerciais poderão ser retomadas aos poucos. A gente precisa entender que o novo normal exige o esforço de casa um para que aja um controle de coletividade”, alertou Mary Ann lembrando que a vacina é sim uma esperança real, mas quem está recebendo as doses precisa manter os cuidados básicos até está protegido em sua totalidade.










