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Infectologista do Sertão prevê um cenário caótico nas próximas semanas causado pela Covid-19

O infectologista Dr. Washington Luiz faz uma análise da situação do Sertão diante da pandemia. Foto: Arquivo pessoal

Com 2.349 mortos em um dia, Brasil vira o epicentro da pandemia. Essa certamente foi a principal manchete dos jornais, sites e blogs de notícias nesta quinta-feira, 11 de março. Mas, e no Sertão, o que podemos esperar para os próximos dias? O Jornal do Sertão conversou com o médico infectologista, Washington Luís, que atua no Vale do São Francisco, para saber qual a situação da Rede PEBA, que atende mais de 50 municípios de Pernambuco e Bahia.

Números do Vale do São Francisco desenha cenário caótico       

Segundo o médico infectologista, Washington Luís, caso não sejam adotadas medidas mais rígidas para frear a contaminação e reforçar a capacidade de atendimento na rede de saúde, um cenário caótico pode se instalar na região. 



“Os números atuais no Vale do São Francisco da covid-19 desenham um cenário caótico nas próximas semanas. As medidas que mais podem diminuir os impactos na saúde pública são a diminuição na taxa de transmissão e a ampliação da rede de atendimento médico-hospitalar. No meu entendimento, isso deveria acontecer a partir da adoção de medidas rígidas de isolamento social, como o fechamento das atividades não essenciais por pelo menos duas a três semanas, acompanhado de um grande equipamento de segurança pública para garantir o cumprimento de tais medidas e da ampliação de leitos de UTI da rede interestadual”, analisou o médico.

Medidas atuais de restrição tem efeito prático no Sertão?

Segundo Dr. Washington Luís, as medidas restritivas que estão em vigor na região não são suficientes para frear a contento a disseminação da Covid-19. Para ele, “o modelo atual de toque de recolher não atende na sua totalidade porque só irá diminuir as aglomerações nos locais super propagadores, como bares, restaurantes. Estas medidas teriam uma resposta melhor se tivéssemos adotado num cenário menos caótico, como por exemplo quando tínhamos uma taxa de ocupação de leitos em torno de 70 a 75% com tendência de crescimento”, explicou o infectologista.

Qual o número ideal de leitos da UTI para região? 

Rede Peba tem 319 regulados e precisa de, pelo menos, 500 UTI’s. Foto: PMP

Atualmente, a Rede PEBA possui 319 leitos regulados pela Central de Regulação Interestadual de Leitos (CRIL). No último dia 7 de março, a rede atingiu 100% de ocupação. Nesta semana, a porcentagem ultrapassa os 90%. Com esses dados, o Jornal do Sertão questionou qual o número ideal de leitos para atender satisfatoriamente a região.  

De acordo com o Dr. Washington Luís, “segundo a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde, o ideal é ter de 1 a 3 leitos de UTI para cada 10 mil habitantes. Para a rede PEBA, em torno de 500 leitos já seria um bom número, 600 seria o ideal”.

E se a Rede PEBA entrar em colapso?

De acordo com a análise do médico, caso da Rede PEBA entre em colapso, seria uma catástrofe na saúde pública. “Juazeiro e Petrolina hoje são os grandes polos referência da rede PEBA. Atualmente, 1/3 dos leitos de UTI ocupados nas duas cidades são de pacientes residentes de outras cidades da macrorregião norte. Com a rede em colapso, teríamos pelo menos um déficit de 20 a 30 leitos de UTI para assistir as cidades da rede PEBA. Será uma catástrofe do ponto de vista de saúde pública, já que estamos ainda num processo de aceleração da curva de crescimento dos casos de covid-19 e, diferentemente da primeira onda, nesta não temos uma previsão para a queda no número de casos novos devido às variantes que acometem o país”, afirmou dr. Washington.

Vale do São Francisco pode sofrer com falta de oxigênio de insumos para pacientes com Covid-19?

Assim como já aconteceu no Estado do Amazonas, uma preocupação latente é a possível falta de insumos e até de força de trabalho da saúde para atender às pessoas acometidas pela doença. Por isso, o Jornal do Sertão perguntou ao infectologista se esse perigo é real ou não na região.

“O maior problema não é a falta dos ventiladores mecânicos, mas dos insumos e da força de trabalho especializada. Já existe desabastecimento de oxigênio em várias cidades do país, falta de sedativos, bloqueadores neuromusculares, antibióticos e de equipes de saúde experientes no manejo destes pacientes. Na terapia intensiva, são os pacientes mais graves. Enquanto em UTI gerais não-Covid-19 a mortalidade máxima é de 20%, em UTI Covid-19, alguns locais podem atingir uma mortalidade próxima de 80%, especialmente, os que precisam de ventilação mecânica. Estes pacientes não morrem apenas de insuficiência respiratória, mas também renal (40%), cardíaca (20%) e trombóticas (20 a 30%)”, informou o médico.

A Covid-19 pode vencer a vacina?

O médico alerta que a lentidão na imunização vai aumentar as mortes pela Covid-19. Foto: PMP

Levando a conta o ainda lento processo de imunização da população, a oferta restrita de vacinas e a velocidade de disseminação da doença, muitos se perguntam se há risco de a doença vencer a vacina. Mas, para o infectologista sertanejo, apesar dos “contra”, essa possibilidade é remota.

“Vencer a vacina eu acho pouco provável. Porque os estudos mostram que as vacinas, na pior das hipóteses precisariam de uma terceira dose. Mas a demora na vacinação vai, com certeza, aumentar em números exponenciais os óbitos”, assegurou dr. Washington Luís.

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