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Lições da Crise em Manaus que podem ajudar o Sertão no enfrentamento à pandemia

Desde janeiro Manaus vive dias de caos sanitário e um colapso na saúde pública causou a morte de muitas pessoas sem acesso a UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) e sem oxigênio. Para apresentar de perto o que está acontecendo na região, uma entrevista com o bacharel em ciências biológicas Antonielson da Silva, 26, que mudou-se para a capital amazonense há quase 2 anos, após ser aprovado no mestrado em Entomologia, área que estuda os insetos, do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia(Inpa). 

Formado pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, Campus Serra Talhada, o sertanejo está enfrentando um grande desafio na pandemia. “Eu vim para Manaus só para estudar e cursar o mestrado, então a pandemia acabou atrapalhando algumas coisas. Por exemplo, era para eu defender a dissertação no mês que vem, mas eu não tenho como ir para o laboratório e a minha pesquisa está atrasada. Já foi prorrogado lá para agosto, daqui há 6 meses.” 

 

Interminável espera pelo retorno da vida normal

O caos que assola a região tem afetado a vida das mais de 2 milhões de pessoas que moram em Manaus. “No início eu não pensava que ia demorar tanto, acho que todo mundo não pensava que ia prolongar até hoje. Então foi prorrogado e eu fiquei sem ir para o Inpa no fim de março e retornei, aos poucos, só em agosto. até novembro estavam quase liberando totalmente, com o aumento dos casos foi tudo trancado. Contudo, eu paguei todas as disciplinas em 2019 e em 2020 eu fiquei só com a pesquisa, que eu precisava ir constantemente para o laboratório mas não teve como.”

Antonielson da Silva acima.

Esse cenário causou diversos prejuízos para o estudante.“Eu atrasei minha qualificação. Além disso, não terei como concluir o que estava previsto no meu plano, infelizmente vou ter que mudar a pesquisa pois não tenho acesso ao laboratório”, destaca Antonielson. Segundo ele, muitos alunos também precisaram mudar sua pesquisa justamente por isso.

 

Colapso em Manaus desperta solidariedade global

O caos na capital amazonense tem desgastado o sertanejo, que tem seguido todas as orientações das autoridades de saúde e mantém-se a maior parte do tempo em casa. Para ele, a situação local está pior que no início da pandemia e isso tem impactado no aspecto emocional e psicológico. Em vista de amenizar o sofrimento da população de Manaus, artistas se mobilizaram para formar uma rede de solidariedade e doar cilindros de oxigênio. Dentre eles, Whindersson Nunes, Marcelo Adnet, Marília Mendonça, Gusttavo Lima, Tirulipa e Tatá Werneck. O Governo da Venezuela também doou caminhões de oxigênio.

O papa Francisco chamou a atenção do mundo para o colapso na região. “Nestes dias a minha oração é por quantos sofrem com a pandemia, de modo especial em Manaus, no norte do Brasil. Que o Pai das Misericórdias lhes sustente neste momento difícil. Lhes abençoo de coração!” , disse o pontífice.

 

População manauara segue parcialmente as orientações das autoridades de saúde.

Mesmo vivendo um cenário devastador e restrições impostas para controlar o número de casos de Covid-19, parte da população não tem colaborado. “Manaus está bem restrita. Está havendo toque de recolher, muitos estabelecimentos fechados e restrição de pessoas nas ruas das 19h até as 6h. Mesmo assim, infelizmente, é comum ver as pessoas sem máscaras.  Fui ao supermercado e vi muitas pessoas nas ruas sem máscaras ou com elas nas mãos; só colocaram o item de proteção quando entraram nos estabelecimentos.”

Somente serviços essenciais estão autorizados, o que tem causado graves prejuízos financeiros na economia da maior cidade do norte brasileiro. Com isso, comerciantes têm buscado driblar a fiscalização. “Apenas estabelecimentos essenciais estão permitidos funcionarem, supermercados e farmácias, por exemplo. Contudo, muitas lojas de sapatos, roupas e estabelecimentos não-essenciais estão com portas entreabertas.” 

 

Hospitais lotados, medo e sofrimento pela morte de entes queridos 

O estudante relatou ao Jornal do Sertão que muitas pessoas próximas à ele contraíram o vírus e perderam parentes. “Muita gente, o pai da minha colega de turma faleceu; os pais de uma colega pegaram e ainda permanecem doentes; professores da Universidade Federal do Amazonas  e do Inpa faleceram. Bastante gente que conheço pegou.”

O medo do contágio e o risco em unidades de saúde fizeram com que Antonielson evitasse buscar os serviços. “Eu evitei fazer consultas no hospital por medo, apesar de precisar de outros atendimentos médicos não-relacionados ao Coronavírus. Deixei de ir por medo mesmo, eu sabia que o hospital estaria lotado.” 

Uma nova variante do novo Coronavírus surgiu na região. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, “as mutações detectadas na variante P1 podem potencialmente reduzir a capacidade dos anticorpos de neutralizar o vírus; no entanto, estudos adicionais são necessários para avaliar se há mudanças na transmissibilidade, gravidade ou na ação dos anticorpos”. Dezenas de pacientes de Manaus têm sido transferidos para hospitais de outros estados, inclusive Pernambuco.

 

Crise sanitária também atinge o Sertão

Antonielson acompanha com preocupação o número de casos na região do Pajeú. “Eu sempre vejo as notícias de Serra Talhada e região. Sempre acompanho se os casos estão aumentando ou diminuindo. Minha família, que reside em maior parte na zona rural, ninguém pegou coronavírus, apenas pessoas próximas.”

A 11ª Gerência Regional de Saúde em Serra Talhada já contabiliza mais de 11 mil e 254 casos confirmados e 191 óbitos. Ontem a Secretaria de Saúde do Estado de Pernambuco confirmou que dois pacientes trazidos de Manaus estão com a nova variante P1 do Coronavírus, o sequenciamento genético foi feito no Instituto Aggeu Magalhães.

 

Longe de casa por segurança

Para finalizar, ele destaca que apesar de residir sozinho no Amazonas e estar distante da família, não é seguro retornar para o Sertão agora. “Eu tenho medo de ir para casa nesse momento, pois preciso passar por diversos aeroportos e rodoviárias, e não quero arriscar de pegar o vírus e levar para eles.”

JS Saúde

Jornalista Anderson Santana Editor Antônio Junior

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