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Solstício de inverno e mudanças climáticas | Por Geraldo Eugênio

Geraldo Eugênio, Professor Titular da UFRPE-UAST

As estações que não chegam ao Sertão

Na escola se aprende que temos quatro estações no ano: verão, outono, inverno e primavera. Há as descrições poéticas para cada uma delas, sendo o verão a época do calor, o outono das frutas, o inverno do frio e a primavera, das flores. Tal descritivo se aplica muito bem quando se leva em consideração os ambientes temperados. Ao se afastar da linha do equador em direção aos polos, se consegue, seja no hemisfério Norte ou Sul se contar com as quatro estações.

Na região sertaneja as quatro estações se resumem em duas: Verão, seco e inverno, chuvoso. A primeira se estende por oito a nove meses, enquanto o período de chuvas normalmente não ultrapasse a cinco meses. Aqui, no Sertão pernambucano, entre janeiro e abril.

Chuvas atípicas em 2022

Este ano a normalidade mudou um pouco. Em primeiro lugar a estações seca, que se estende de maio a dezembro, não foi tão seca e a caatinga se manteve verde em todo o período. Quando parecia que ia secar, lá vinha uma boa chuva, mantendo-a vigorosa, verde e em alguns casos, luxuriante.

Janeiro de 2022 chegou demonstrando que o ano seria melhor do que a média, confirmando pelo que iria chover nos meses de fevereiro e março. Até aí tudo bem e a esperança de uma ótima colheita de milho, feijão, mandioca estava à vista.

O mês de abril trouxe consigo aquilo que aparentemente não é o padrão. Dados de períodos longos mostram que nesse mês, em Serra Talhada, na Fazenda Saco, se chovia ao redor de 120 mm. Este ano não houve chuva, mantendo-se o veranico até o final de maio quando, no dia 30, ocorreu uma precipitação acima de 20 mm. Algo inesperado que continuou durante todo o mês de junho.

Desastres anunciados

Em junho também se contou com uma onda de frio que mudou a rotina do Sudeste, Sul e Centro-Oeste, atingindo o sul da Bahia. As temperaturas caíram de modo brusco e não foi exceção o registro de temperaturas entre 0 e 5 graus centígrados. Algo difícil de se manejar em locais normalmente acostumados com calor. Logo depois, nas regiões litorâneas da Paraíba, Pernambuco e Alagoas, desabou-se um dilúvio, com as consequências que se testemunhou de modo mais drástico nos municípios de Recife e Jaboatão. No litoral as chuvas fortes persistem abrangendo quase todo o estado. Serra Talhada, a 420 km do litoral vem contando com precipitações dignas dos meses de fevereiro e março.

Ainda há quem se propõe duvidar das mudanças climáticas em curso, entretanto todo habitante do Sertão pernambucano tem notado a alteração no calendário do início do período chuvoso e nas trovoadas que se tornam a cada dia mais frequentes. O mesmo podendo ser dito em relação às secas que se alongam por longos períodos.

Teremos forragem

O ponto positivo deste ano é que em ao menos metade da superfície do estado, além de chuvas que asseguram se contar com a pastagem da caatinga por alguns meses à frente, as barragens e açudes têm recebido grandes volumes de água o que resulta em não se depender dos carros-pipas por algum tempo. Alegria para alguns e, por incrível que pareça, tristeza para outros, acostumados à aplicação da teoria do quanto pior, melhor.

No caso dos grãos, não se pode falar o mesmo

Já no caso dos grãos a situação não é a mesma das forragens. O veranico ocorrido nos meses de abril e maio trouxe uma grande frustração de safra, reduzindo o potencial produtivo do milho em ao menos 30%, na região. O sorgo não sofreria a mesma queda de produtividade, mas infelizmente quer o sorgo forrageiro quanto o granífero ainda não foram incorporados como uma opção consistente no semiárido.

Os avanços tecnológicos observados com a cultura do milho têm sido notáveis. Os novos híbridos disponíveis no mercado têm sementes mais vigorosas, crescimento rápido, tolerância a estresses hídricos e a temperaturas elevadas. De modo jocoso pode até ser dito que ano após ano, o milho se aproxima do sorgo em termos de resistência a secas. Espera-se ainda mais avanços nas próximas décadas e a certeza de que sob condições de irrigação ou de sequeiro, nas áreas mais nobres da propriedade, haverá espaço para uma produção comercial de milho e sorgo. Opções essas que beneficiariam várias cadeias produtivas demandantes de amido e ao mesmo tempo povoaria a região de unidades produtivas em comparação com grandes áreas à descoberto ou servindo tão somente para a produção de lenha e carvão.

A UFRPE-UAST, o IPA e o Programa Prospera, que têm como objetivo principal tornar o Nordeste brasileiro autossuficiente em milho, estão apostando no cultivo desse cereal e do sorgo no semiárido, utilizando-se do que existe de mais atual em termos tecnológicos, para situações de uma agricultura dependente de chuvas.

Há razões para otimismo mesmo 2022 havendo tido um período chuvoso um tanto fora da curva normal. Espera-se que outras iniciativas juntem a essa e se possa, de modo gradual, ir tornando as propriedades rurais fonte de produção, de adoção de conhecimento, de prosperidade e inovação, contribuindo assim para o melhor conhecimento da região e uma convivência sustentável com semiárido brasileiro.

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