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Voltemos aos grãos em Pernambuco

A lavoura de feijão é uma aposta para o solo sertanejo.   Foto: Divulgação

A demanda por grãos no estado de Pernambuco continua elevada, mesmo com a pandemia e a queda do poder aquisitivo da população. O cuscuz e o ovo continuam sendo os alimentos mais baratos e têm sido o principal fator de equilíbrio na dieta em tempos de escassez.

A produção também. Estima-se que a safra de milho do estado será superior ao ano de 2021, em ao menos 10%. Vale lembrar que a lavoura do Agreste foi plantada recentemente e ainda não há condições de assegurar esses números.

O crescimento da produção ainda é pouco percebido, uma vez que Pernambuco produz muito pouco. Contudo, vale ressaltar que nos últimos anos algumas iniciativas estão sendo postas em prática tentando demonstrar que há condições de produzir cereais no semiárido brasileiro mesmo incorrendo-se em risco. A aposta na tecnologia, nos tratos culturais e na logística são essenciais.

O preço não cede

Se alguém imaginou que a retração do dólar devolveria os preços aos patamares pré-covid, erraram. O dólar está valorizado não porque o real recuperou a força, mas porque a moeda americana dá sinais de cansaço e o truque do padrão dólar, como moeda universal já não convence, permitindo aos Estados Unidos colocarem a impressora a funcionar emitindo bilhões de dólares sem lastro.

Com isto, o que se observa é que os preços de grãos continuam em níveis elevados. Os insumos são baseados no mercado internacional, as máquinas e a logística, também. Com a dependência quase que chocante da agricultura nacional à aquisição de fertilizantes no exterior, fica claro que o controle não está aqui.

Para Pindorama fica o glamour, mas não os ganhos efetivos. Inclusive para as empresas aqui instaladas, eis a questão. A inflação ganha força e, para o cidadão comum, os números oficiais parecem piada. Provavelmente quem faz feira sabe bem que o que comprava por cem reais há um ano, talvez tenha que usar o dobro agora. Se os combustíveis foram por muito tempo um indicador de elevação dos preços no varejo e na alta do custo de vida, porque deixaria de ser agora. Difícil de confiar nos números publicados.

Há onde comprar

Em se tratando do Nordeste, a consolidação da produção de milho e soja no Oeste da Bahia, no Sul do Piauí e do Maranhão, em Sergipe e, nos últimos anos em Alagoas mostra que ao menos não há ameaça de falta de produto. Ele existe e não está tão distante, vale saber até quando o avicultor regional banca o fato de estar produzindo frango e ovos no vermelho.

Uma hipótese estapafúrdia

E sendo o alimento, o principal fator na equação que estabelece o preço dos produtos animais, e se ocorrer aumento no valor do milho e da soja todos têm que reconhecer a realidade e planejar fontes alternativas de suprimento.

A Corteva, empresa da área de biotecnologia, há cinco anos vem mantendo o Programa Prospera, hoje com o suporte adicional da Massey Ferguson e da Yara que pressupõe a capacidade de se produzir milho com o pequeno e médio produtor do semiárido.

Esta ideia não soa razoável aos ouvidos de muitos produtores e analistas que pecam na análise por insistirem em ver o futuro com instrumentos do passado. É importante lembrar que o milho e a soja foram as duas espécies com maiores investimentos em ciência, tecnologia e inovação.

No Cerrado brasileiro, nos estados do Meio Norte Americano ou nas áreas produtoras de milho na China não se discute o processo, sabe que ele ocorreu e se verá como se administra o fato. Os questionamentos sobre preço de sementes saíram de pauta. Os ganhos de produtividade silenciaram as dúvidas.

Em alguns países, esta mudança se deu sem alarde e dirigindo- -se aos pequenos e médios produtores. É algo similar ao que está ocorrendo nos programas citados, em Pernambuco. Não é que nos anos de seca, entre 2017 e 2018 testemunhou-se produtividade de grãos superiores a quatro toneladas por hectare?

O Sertão não poderia deixar de acompanhar as tendências de mercado e tecnológicas à distância. Neste ano agrícola, campos de demonstração foram instalados e aguarda-se a validação ou não da hipótese de que o semiárido garante, em ambientes selecionados, uma produção sustentável fazendo com que parte do capital envolvido na aquisição de milho e soja permaneça circulando localmente.

Ainda há muito o que ser feito, mas o pecado imperdoável é o de não se tentar. As entidades empresariais, além da Avipe – Associação dos Avicultores de Pernambuco, devem se engajar neste movimento bem como as instituições de tecnologia e inovação. Há de se demonstrar, na prática, que o Sertão não mudou significativamente seu clima nas últimas duas décadas, mas que a pesquisa alterou, para melhor, a genética das sementes, os sistemas de cultivo e o aproveitamento da maioria dos cultivos em todo o mundo.

 

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